AS COISAS NUNCA MUDAM

por

Nazarethe Fonseca

 

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Os portões desenhados, velhos lamentaram tal carpideira ao meu toque, o cheiro ferruginoso do aço em decomposição das grades ficou em minhas mãos. O panorama a minha volta era desolador em qualquer direção que se fitasse. Todavia, tornou-se meu segundo lar, pois ali na campa, submersa entre as raízes dos chorões minha amada dormia. Seguia pelas quadras tranqüilamente, sem sobressaltos, reservas, nas mãos um ramalhete de rosas brancas, suas preferidas, aquela altura não poderia ser desatento, ela merecia o melhor.

          O entardecer surgia no horizonte com a promessa de uma noite repleta de estrelas. As nuvens se matizavam em rosa e lilás, enquanto os tons de vermelho ficavam próximos ao sol agora tão frágil, frio. O vento varreu as folhas a minha frente num redemoinho, lamuriosa melodia se fazia ouvir vindo dos eucaliptos e sentia-me quase empurrado sempre adiante, para sua tumba. Ansioso, apressei o passo e como de costume ignorei os fantasmas que pairavam sobre suas tumbas ao longo do meu caminho quase rotineiro. Figuras aeriformes, de olhos chamejantes, mãos estendidas, faces oras irritadas, oras repletos de dor e pesar. E depois de tanto tempo percebi que não mais os ouvia. E suas bocas abertas, em movimento eram mera pantomima.

:: Postado por Nazarethe Fonseca �s 00h02
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ankh

          A escada surgiu lodosa nos cantos, gasta no centro, coberta pelas pequenas flores amarelas da acácia de tronco negro. O contraste de cores encheu meus olhos, pois naquele recanto mais velho do cemitério a natureza seguia livre. A grama alta subia pelos bancos de pedra como mãos agarrando-se, subindo até o acento, trepadeiras teciam tramas sobre estatuas pias de anjos e guardiões de asas abertas, feitos somente de pedra e tristeza. Os galhos das árvores mais baixos abraçavam as construções enegrecidas, dedos nodosos, ossudos, longos cobertos de folha e formigas distraídas. A paredes estreitas dos mausoléus tocadas por muitos dias e noites de chuva, sol e vento jaziam encravados dentro da escuridão de uma massa de limo negro. Os caminhos tragados pela grama e mato eram mera lembrança feita de blocos de pedra esquecidos.

Os pássaros pressentindo a noite se avizinhar buscavam seus ninhos nas arvores em grande balburdia, a noite chegava sobre tudo e todos, parindo sombras sinistras em cada recanto, curva detrás das lapides e mausoléus. O coveiro a muito havia esquecido aquela quadra, menos eu, estava no limite de meu mundo, onde o paraíso parecia feito de dias longos e noites curtas. Quando afinal cheguei ao local de descanso de minha amada, era o próprio Ulisses retornando as praias de Ítaca após dez anos de luta em tróia e mais dez perdido no mar amaldiçoado por Posêidon.

:: Postado por Nazarethe Fonseca �s 23h52
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ankh

         Puxei do bolso as chaves, venci o cadeado, a corrente e em questão de segundo as grades me acolheram dentro do templo de minha deusa. Atravessei a primeira galeria sem prender a sua desolação e esquecimento, meus passos sussurravam sobre as folhas secas, e ao me aproximar do arco desenhado, afastei o véu das trepadeiras sem me prende as flores roxas que ela gentilmente oferecia. Desci o pequeno e curto lance de escadas e novamente usei minhas chaves, a porta envelhecida cedeu e jogou-me sem cerimônia dentro de um mundo esquecido, silencioso perdido entre dois mundos, onde vida e morte jogavam xadrez.

            A saleta um véu de mistério parecia um pedaço precioso de floresta. A pouca luz que vinha do mundo exterior fluía pelo vitral colorido fúnebre, jogando no chão liso, frio, feito de mármore figuras pias de mãos postas, um cristo no calvário. Uma alegria presunçosa invadiu meio peito, uma satisfação sem causa. Bem sabia o que significava a euforia, sim, sua presença. Lancei um olhar para seu tumulo a poucos passos e contemplei sua majestade. Uma estrutura que se erguia buscando alcançar o céu esculpido num bloco maciço de mármore rosa. Um leito protetor e misterioso que nos fazia imaginar se a criatura ali sepultada realmente lembrava a efígie esculpida sobre a tampa. A jovem feita a cinzel possuía ares de semideusa. A figura inanimada feita em esmero imitava pose de descanso breve e não o sono dos defuntos.Pernas flexionadas, a mão delicada sobre o colo quase desnudo, cabelos em desalinho e a face voltada para o ato. Um delírio de artista, dos que a fizeram para sempre viver na imortalidade. Desviei a vista, sua efígie sempre me perturbou, roubou minha paz.

Depositei as rosas no vaso de porcelana chinesa, e percorri a saleta com o olhar atento, varri os cacos de vidro do tapete oriental, organizei as almofadas do divã, estendi o manto de veludo e quando terminei, a sala já estava mergulhado em sombras. Acendi as velas nos candelabros, e por fim, apanhei em seu velho baú os incensos de sua preferência. A fumaça branca e leve flutuava na saleta em lindos desenhos espirais. Abasteci a bandeja de prata com mais dois cálices de cristal, abri o vinho e fui para diante de seu tumulo.

A tampa arranhou pesada a borda do tumulo, ela despertava. A luz frágil das velas iluminou sua face descorada, os olhos fulgentes, mas mãos lânguidas seguraram a borda do tumulo. O corpo delicado surgia de dentro da escuridão de seu leito de cetim e veludo. A cabeleira cacheada em desalinho era um mundo misterioso feito de cobre. Fechei as mãos sobre sua cintura e a ergui, trazendo-a para o chão. Suas mãos estavam sobre meu peito e o olhar exigia algo que somente eu poderia oferecer-lhe, sangue. Ajoelhei-me diante de minha senhora e esperei compreensivo.

A face pequena, os lábios cheios, pálidos tocaram os meus sôfregos, frios. Ela estava faminta...Apertava-me junto ao seu corpo delicado, enquanto meus dedos perdiam-se sobre seus ombros. O toque acetinado, luxuoso de sua mortalha feita em véus e renda cândida, continha meus arroubos, afinal diante de mim estava minha prometida. Sua inocência jamais fora usurpada. Um exercício coragem, resistir a suas caricias, ao seu desejo constante, exigente...As mãos pequenas vagavam entre os botões e quando seus lábios tocaram minha carne firme, estremeci, trazendo-lhe gozo e riso. A língua varreu meus sentidos e me fez gemer rouco sob seu domínio. Aspirei a cabeleira vermelha e esperei docemente pela mordida que veio impiedosa. Apertava meus ombros sugando silenciosa, ávida e quando finalmente se deu por saciada se afastou. Recuou um, dois passos e nos lábios entreabertos vi meu sangue alimentar sua vida imortal como dádiva, êxtase maior. Cansado fraco sentei sobre as pernas e a fitei deslizar a língua, sorvendo as ultimas gotas de meu sangue da boca. Renovada, saciada Cíbele sorriu e estendeu-me a mão, me puxou do chão onde resolvera ficar a admirando. Deitou-me sobre o divã e me trouxe um cálice de vinho que sorvi de um gole longo e único.

E ali ficamos pelas longas horas da noite em meio a beijos e caricias. Cíbele contou-me dos sonhos que tivera, dançou enquanto a fitava flutuar entre os véus e sorrisos. E deitado sobre meu corpo revelou o desejo de sair, ver a noite além dos muros, mas o fazia sempre num tempo futuro, como se temesse me desagradar. As grades de seu mausoléu não lhe permitissem sair, mesmo estando abertas. O medo em seu coração era maior.

__Veja, as velas se extinguem é quase alvorada.__murmurou atemorizada.__Deve parti, nosso tempo é findo.__reclamou saindo de meus braços.

__Há tempo para um último beijo.__murmurei segurando-a pelo pulso delicado.

__O recebera se me prometeres não partir de imediato.__negociou sagaz.

Colei-me a ela e sua boca já me pertencia, meu corpo a cobriu, e quase instintivamente ela me recebeu entre suas pernas macias. Ofeguei seu doce nome sentindo a excitação me varrer como uma tempestade. Afaste-me e vi seu desapontamento, frustração.

__Volte amanha e me faça sua.__murmurou tocando meus ombros, envolvendo-me. __Liberte-me. __sussurrou junto ao meu ouvido.

Estava sentada no chão recostado ao divã, acercada por suas pernas a minha costa. Levante-me sendo seguido por ela, abraçou-me a cintura e colou a cabeça de encontro ao meu peito. E num gesto de desespero buscou minha boca, enquanto a mão vagava por minhas costas.

__Fique, preciso de você...__gemeu.

:: Postado por Nazarethe Fonseca �s 23h50
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Nazarethe Fonseca
Sou uma mulher, pois, assim o divino me destinou a ser. Estou em constante mudança, evolução e até mesmo sujeita a retroceder. Pois nesse corpo bate um coração, nessas veias corre sangue. E como um animal “consciente, falante, civilizado”, posso incorrer a enganos, atos impensados. Não me limitarei a dá qualidades, pois talvez somente eu as perceba. Citarei que acho mais obvio em minha natureza humana, feminina. Tento sempre ser positiva, otimista, sem parece hipócrita, amiga, segura, forte, persistente, grata, consciente, tolerante, paciente, sagaz, ter um propósito, ser movida pela fé, pela idéia de que a nossa volta existe algo mais que o vazio, o silencio ensurdecedor. Talvez isso não seja tudo, mas certamente é o que me ocorre a essa altura da vida. Pois nada pode ser perpetuo quando somos mortais.



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